Dia: 14 de fevereiro de 2025

  • Dance bem, dance mal, dance sem parar

    Dance bem, dance mal, dance sem parar

    Reinvenção

    Sempre invejei os dançarinos. Olhava-os com uma admiração que beirava o delírio. Muitas vezes me imaginei no lugar daquelas mulheres do tango, da dança do ventre, da dança de salão. Me via em momentos de pura fantasia sensual, a própria “morena do tchan”.

    Mas tudo não passava de sonho, de fantasia, de viagem mental mesmo. A minha realidade era outra completamente diferente.

    Fui uma jovem educada numa família católica que nunca valorizou a dança, embora a música fosse um traço marcante no ambiente familiar. Cantar era muito importante e permitido, mas dançar não era muito bem visto pelas famílias religiosas da minha época. Uma quadrilha talvez, mas nem isso fui muito estimulada a fazer. Enfim, cresci num ambiente hostil à dança.

    Na minha adolescência, a despeito de tudo isso, fui a algumas festas e parecia que estava estampado na minha cara: “Eu não sei dançar”, pois como se fosse uma sina que havia de se cumprir, nunca era chamada para tal. Ficava sentada na mesa à espera de um príncipe encantado que me visse e me tirasse daquela situação incômoda, que aos meus olhos era vista por todos como sendo de alguém feia e incapaz de encantar os rapazes.

    Certo dia, um deles aproximou-se e me levou para dançar. Fiquei eufórica! Olhava para minhas amigas de mesa como se tivesse tirado na loteria. Mas qual não fora minha decepção, quando ao dançar metade da música, sem conseguir acompanhar os passos do meu parceiro, que respirava com impaciência ao meu ouvido, me vi largada sem dó nem piedade no meio do salão. Não houve nenhuma explicação, o gesto por si já estava carregado de motivos, embora não contivesse nem educação nem elegância. Mas enfim, fiquei com o trauma da incompetência, da vergonha e da incapacidade de dançar. Melhor não mais tentar, apenas sonhar. Esse ficou sendo o meu lema.

    O tempo passou, veio a idade adulta, muito adulta. Chegou aquela hora da vida que ou você faz o que quer ou nunca mais vai poder fazer. Ou você tira da gaveta os seus sonhos, ou você morre frustrada sem saber sequer o que é realizar e ser feliz.

    Há muito tempo a ideia de dançar povoava novamente a minha cabeça. Mas como fazer isso? O sentimento de vergonha, de medo do ridículo e do “sei que não sei”, vinha imediatamente. Sou descoordenada, não tenho ritmo, vão rir de mim … e todos esses pensamentos me impediam de avançar na proposta de buscar uma aula de dança.

    Pensamentos que me impedem de viver as coisas boas da vida são meu lado negro. Como não gosto deles e eles são os que mais me impedem de viver meus sonhos e ser mais feliz ainda, resolvi que não quero mais tê-los como companheiros de mim. Busquei ajuda.

    Claro que não tem sido fácil, porque eles são como monstrinhos, pequenos e em grande quantidade, que habitam há muito tempo o meu cérebro. Acho que nasceram quando eu era criança. Tem uma capacidade fantástica de se reproduzir, e não dependem de alimentação externa. Eu mesma os alimento sem saber que estou alimentando. Então, esses monstrinhos têm um poder de se manter vivos por tempos, o que me fazem ter trabalho para exterminá-los. Eles são muito nocivos na minha vida e têm me impedido de viver muitas coisas boas e de estar bem em muitos momentos. Fazem isso comigo gratuitamente, e eu resolvi montar uma estratégia de guerra a eles. Nesse processo, preciso mostrar algumas vitórias para que meu inimigo veja que não é tão forte assim quanto parece e, nesse caso, já me vejo quase uma vitoriosa. Estou vencendo o monstro do medo, da vergonha e do pânico de dançar. Estou fazendo dança de salão e acreditem, zumba!

    Na aula de dança eu me sinto livre, solta, sensual. Jogo com o corpo. Forço a mente, tentando decorar os passos que o professor na frente faz rapidamente. Para quem tá morrendo de medo de ter Alzheimer, é um ótimo exercício. Dou gritinhos acompanhando o professor, rebolo e balanço sem a mínima preocupação de estar sendo vista, olho minha silhueta no espelho e acho que sou a melhor dançarina da turma. Agacho para imitar a dançarina do Tchan e lembro do sonho de sê-la. Agora posso ser a própria, ali, naquele espaço, com luzes que piscam e brilham como num palco, com música alta, gritos e magia. Eu estou vivendo e soltando com muita alegria minha energia boa.

    Do meu suor saem gotas de prazer, de felicidade. Vou exalando o preconceito, o medo, a desconfiança de mim mesma e vou deixando que através da música entrem em mim a alegria, a autoconfiança, o olhar para o quanto sou capaz de realizar coisas até então improváveis. Deixo que a música que eu não era capaz de ouvir antes me diga que posso soltar toda essa luz que tenho presa, toda essa carga de energia, de vontade de viver, de vontade de canalizar alegria e bom humor.

    Eu preciso muito da relação com o universo. Descobrir mais este canal foi para mim um grande passo, ultrapassei uma enorme montanha. Hoje me comunico através dos meus amigos e da minha família, através do que escrevo e através da música e da dança.

    Estava no carro e cantarolava voltando da aula de dança: Dance bem, dance mal, dance sem parar… Me vi na novela Dancing Days, anos 80. Estou feliz!

  • Mudanças

    Mudanças

    Reinvenção

    Falamos das mudanças na vida como uma constante, mas encarar e ter consciência da importância que têm pra nós é uma das coisas mais significativas que a maturidade nos traz.

    Se na juventude as mudanças são ainda mais frequentes, muitas vezes não paramos para perceber e avaliar com clareza qualquer evolução. Elas simplesmente acontecem e passamos de etapa, como num jogo. Casar, ter filhos, assumir uma profissão, ter perdas e ganhos. Eu, pelo menos, vivi tudo isso naturalmente. Nunca parei para pensar em que grau cada um desses momentos me modificava como pessoa ou como essa dinâmica me transformava. Eu simplesmente vivia.

    Mas de uns tempos pra cá as mudanças começaram a ter um novo eco. Percebo nitidamente o que me toca e o que devo fazer objetivamente para vivenciar as transformações de forma proativa.

    Quando decidi trabalhar voluntariamente com mulheres que se recuperam do uso de drogas, determinei a mim mesma um dia e hora certos para estar lá. Planejo cada encontro, defino como farei criativamente para que fiquemos felizes, eu e elas. Aos poucos fui vendo, os resultados em mim e nelas também.

    Apesar de em grande parte eu ter segurança e clareza das atitudes que devo ter, nem sempre consigo sair da identificação para a mudança concreta. Certas coisas me deixam indecisa, medrosa, desanimada para pular de faixa e subir de nível.

    Quero deixar de comer doce, por exemplo. Sei que não devo exagerar, por todas as razões óbvias. Na prática, esse ainda é um objetivo que só falo, não pratico.

    Já conheço alguns caminhos, mas em alguns casos a incerteza dos processos por vezes me imobiliza. Acabo ficando estacionada na tal da zona de conforto. Talvez seja essa a maior diferença da juventude. Conhecer bem o percurso nos traz menos chances de erro, mas também pode gerar mais insegurança.

    Na minha racionalidade, sei que algumas mudanças são inexoráveis, por mais difícil que seja vivê-las. A mim cabe sabê-las como fonte de aprendizado. Cabe ultrapassar as dificuldades e limitações, ter certeza de que sou capaz, buscar animação, alegria no processo. Cabe entender que as mudanças podem ser boas, mas depende muito de como irei encará-las.

    É isso que repito para mim mesma como um mantra. Vem funcionando.

    Minhas mudanças são o mais forte sinal de que estou viva. Sejam elas doloridas ou lentas, preciso encará-las, viver e aprender com cada uma.

  • Construir sonhos sobre ruínas

    Construir sonhos sobre ruínas

    Crônicas

    Fui desafiada recentemente a escrever sobre este tema. Meu melhor amigo me obrigou a pensar sobre isso. Por que? Talvez por estar vivendo alguma situação que exige muito esforço para realizar, para construir. Ou, quem sabe, teria simplesmente ouvido a frase, e cheio de dúvidas resolveu ouvir o que penso a respeito. Mas é possível que não seja absolutamente nada disso, pode ser que simplesmente esteja querendo ver até que ponto eu suporto suas provocações. Seja qual for a razão, enfrento o desafio e me ponho a pensar e escrever.

    Vou imaginando. O que seriam as tais ruínas? Ruínas da alma é a primeira versão que me ocorre. Ruínas do corpo, ruínas espirituais, ruínas financeiras e patrimoniais, ruínas familiares, ruínas de valores… Muitas possibilidades de estarmos arruinados.

    Ruínas… Penso primeiro em destruição. Desgaste. Podem ocorrer pelo simples passar do tempo ou acontecem com aquilo que não foi suficientemente cuidado ou mantido. Me cheiram a coisa antiga, descuidadas, abandonadas. Ruínas de castelos, de casas, de cidades. Pessoas arruinadas pela droga, pelo vício, pela dor. Arruinadas por doenças, pelo desamor, arruinadas pelo desequilíbrio e falta de paz.

    Tudo isso é tão pesado que dificilmente consigo ver, de imediato, qualquer possibilidade de se construir sonhos em situações assim. O primeiro sentimento que brota no coração é de impotência, de incapacidade e de incompletude mesmo.

    Mas o desafio é categórico, e me soa como uma sentença. É possível construir sonhos sobre ruínas.

    Passei então a vê-las de outro modo. Comecei a olhar com mais respeito para as ruínas arquitetônicas que trazem consigo tanta história e tanta beleza, que explicam os grandiosos e constantes ciclos humanos. Olho para as cidades que foram arruinadas e que se transformaram em metrópoles, ou que puderam se reconstruir e que sobreviveram aos danos que lhes foram causados.

    Olho para as ruínas das pessoas e percebo algum alento. Quantos casos pude ver de arruinados que deram a volta por cima? Arruinados por vícios, arruinados por doenças, arruinados financeiramente. São tantos e tão frequentes que começo a acreditar que chegar à ruína pode, de certo modo, ser alavancador de recomeços e novas histórias. Meu sentimento mudou com o pensar. Passo a enxergar este destino como propulsor e não com o descrédito do início.

    Ruína de gente é traduzida por dor e sofrimento, e é dessas ruínas que mais podem ser construídos os sonhos. Algumas pessoas têm um poder de resiliência tamanho que quando estão vivendo seus momentos caóticos, quanto maiores são as suas incertezas, maior é a sua capacidade de sonhar e de recomeçar.

    O sentido da vida para muitos que estão em absoluta ruína passa a ser a construção de sonhos. E acredito que esta construção de sonhos só exista porque há a lembrança do prédio completo. Porque na memória existe algo que valeu a pena até que se tenha chegado ali, até que se esteja arruinado.

    São as memórias construídas que garantem os sonhos. Certeza de que já viu ali algo muito bonito, merecedor de reconstrução. Reconhecimento de força de coragem e de alegrias já vividas. É o passado dando asas aos sonhos do futuro.

    Mas já vi sonhos serem edificados em situações e ambientes sem passado. Como podem ser construídos sonhos em ruínas de passado triste, desolador? Talvez possam ser construídos a partir das ruínas de cada um. A soma das suas histórias, a soma das suas lembranças ou do que lhes incutiram com amor é que vai produzir o sonho. Infelizmente, sem este sentimento maior, o sonho não aparece, não consegue sequer ser vislumbrado.

    Meus pensamentos vão progredindo. Constato que sonhos sonhados sobre ruínas são mais promissores, mas também mais difíceis de serem vividos. Talvez bem mais difíceis, mas nem por isso menos gratificantes. Os resultados parecem mostrar que os “heróis” que conquistaram seus sonhos a partir de ruínas se sentem mais fortes para viver novas conquistas, se sentem mais seguros para aconselhar ou apoiar novos projetos, são mais corajosos, destemidos.

    À medida que vamos vivendo nos damos conta de que todos passamos por situações em que nos sentimos arruinados. Alguns usam a seu favor, outros caem abatidos. Mas em geral, a ajuda de amigos e familiares é fundamental nessa reconstrução, na transformação de ruínas em novas e boas realidades que podem e devem se concretizar. Sozinho nunca se transforma sonho em vitória, porque o egoísmo e o orgulho são opositores da construção. A força exigida para isto é grandiosa e só muitos, juntos, conseguem este feito.

    Construir sonhos em ruinas pode ser transformador. A perfeição do sonho e seu valor final sempre são um acariciar para a alma. E finalmente, percebo, já apoiada na sabedoria divina: “Que bom é saber-se capaz de sonhar, que bom é ver as ruínas como alicerces, que bom é entender que para sonhar em ruínas precisamos amar”.

  • Às filhas que amo, Clarissa e Fernanda

    Às filhas que amo, Clarissa e Fernanda

    Família

    Tenho a certeza do que é o amor quando recupero em mim o que construí em minhas filhas e com elas. Fala-se de amor, em muitos casos com certa banalidade e, por isso, às vezes nos tornamos reféns de ditos e sensos comuns que terminam por não valorizar aquilo que de mais sagrado e forte existe na vida.

    Para mim, a maternidade é um dos meus maiores exemplos de amor. Significa olhar para minhas duas filhas e admirá-las genuinamente. Encontrar em cada uma o que têm de melhor para oferecer ao mundo. Reconhecer que eu as amo porque as quero exatamente como são. Sentir o amor na centelha do Deus que nos proporciona a convivência e o carinho da vida em comum. E assim, como posso não reconhecer que elas são a maior expressão do amor na minha vida? Impossível.

    São constantemente formas de aprendizagem e de busca de simbolismos e significações que nem sempre consigo entender. O amor, do qual eu falo, não é apenas representado pelos afetos e carinhos que compartilhamos, mas principalmente pelo que me proporcionam com suas identidades tão pessoais e fortes, cada uma desejando se impor como mulher, como pessoa, únicas. Às vezes paro, olho, tento interpretar o que são. Claro, nem sempre consigo, mas somente este exercício já me daria a suficiente razão de ser, de existir.

    Os frutos de tudo que estamos vivendo por aqui vão chegar às próximas gerações. Não pararão em nós, não ficarão conosco, porque estão muito além do que somos, do que estamos buscando encontrar como mãe e filhas. Estes frutos vão produzir muito além do que imaginamos. Tenho certeza que os desdobramentos do nosso amor serão infinitos e passarão para os que virão de nós.

    Quero continuar experimentando viver este amor no respeito que tenho por cada uma, no desejo de estar ao lado delas na passarela da vida. Quero poder segurar a mão delas, mesmo sem que percebam. Quero continuar aplaudindo e, acima de tudo, estar acalentando a esperança de que nunca irão desistir de serem mulheres fortes, corajosas e sábias, que por terem todo o brilho que a vida já lhes proporcionou irão trazer mais e mais pessoas para este lugar tão bonito e feliz em que se encontram. Ao lado delas eu desejo que as pessoas se sintam alegres, e queiram estar juntas e compartilhando vidas grandiosas.

    Espero que elas sempre possam ouvir o barulho dos meus aplausos nos dias alegres ou quando se sentirem assustadas com algo na vida, e possam lembrar dos gritos de “vamos lá”, “coragem”!

    Como mãe, de algum modo estarei por perto.

  • A praia dos meus sonhos

    A praia dos meus sonhos

    Reinvenção

    Eu tenho uma praia de sonhos. É um lugar de prazer, de reflexão, de sorrisos, de silêncio, de antíteses. Nesse lugar eu vivo meus melhores momentos de alegria, meus melhores momentos de afeto, saúde mental, amizades puras e verdadeiras. Lá, vivi amores, paixão, a doçura de brincar ao sol e à luz da lua.

    Os sonhos não são para se viver longe de si. Os sonhos sonhados de longe são como os sonhos sonhados dormindo, são impossíveis. Os sonhos que sonhamos acordados são para serem vividos. Sonhos verdadeiros, reais, possíveis são sonhos que estão perto da gente. E essa minha praia está pertinho de mim.

    Minha praia é plana, tem muita jangada, peixe e pescador. Tem gente simples, que sabe o que eu não sei, fala palavras que desconheço, faz coisas que nunca saberei, tem coragem inexplicável. Nessa praia, vi coisas de beleza tão linda e tão perto que meus olhos sempre se espantam ao repetir ver.

    Na praia dos meus sonhos eu caminho quilômetros sem me cansar. Olho para o mar infinito no seu mudar de cor brilhante, ora prateado, ora cintilante. Mar azul, mar verde, mar que muda de cor espumante, num branco misturado às muitas cores borbulhantes, com algas que gravitam para enfeitar a superfície da sua grandeza.

    Na areia, restos de algas se misturam a pedras e conchas coloridas, de cores e tamanhos que variam, e num passeio vespertino elas pedem para ser colocados no colo e depois despachados como se acalentados pelo nosso toque de admiradores vorazes.

    Na minha praia eu sonho acordada com um infinito que só existe no meu pensar, sonho com um Deus que crio num gesto de adoração a beleza e a perfeição, que consigo ver com olhos de régua que vão rigorosamente medindo cada onda, cada nuvem, cada espaço preenchido de mar.

    Na praia dos meus sonhos, abraço meus netos, brinco na areia e faço castelos de sonhos de princesas que só minha princesinha pode sonhar. Depois ela o destrói, e eu construo outro e mais outro. Ela pode chutar, a onda bater, apagar, afinal, é sonho, é fantasia, é nosso, é só de sonhar.

    Eu deito na areia, me lambuzo, me aventuro no mar. Converso com as filhas e as amigas, rimos e brincamos, estamos vivendo, estamos realizando os sonhos nos lugares mais nobres e bonitos da terra, tão perto de nós, tão perfeito, tão lindo. Nossa praia, nosso lugar!

  • As transformações que vivi e quem me tornei

    As transformações que vivi e quem me tornei

    Crônicas

    A trajetória das nossas vidas é sempre cheia de desafios. A minha não é diferente. Contar o que vivi e vivo é estar disponível para me expor e, ao mesmo tempo, organizar mais um ciclo.

    De uns tempos pra cá, fiz nascer em mim uma “nova mulher”, com mais fé, menos controladora, mais leve.

    Tudo começou tão logo deixei de dar aulas na universidade. Inicialmente, achei que seria fantástico: passear, acordar tarde e só “curtir a vida”. Ledo engano! Continuei acordando muito cedo, meus passeios obviamente não me preencheram completamente e “curtir a vida” virou uma expressão sem sentido.

    O divórcio veio em seguida, e com ele muita dor. Foi, de fato, uma etapa difícil, porque era como se eu tivesse no meio de um tsunami. Ondas de altos e baixos. Escuridão quase total em relação a tudo. Situações muito novas e, para mim, naquele tempo, quase impossíveis de serem ultrapassadas.

    O tempo passou. Fui redesenhando minha vida a partir de um olhar para dentro.

    Fiz o Caminho de Santiago, onde durante 15 dias, andando 312 km, pude reavaliar a mim mesma e o que queria a partir desse novo momento.

    Escrevi o livro “Santiago: Caminho de Renovação”, que me serviu de base, me ajudou a dar estrutura a meus novos pensamentos e a futuras mudanças.

    Fui morar em Nova York sozinha por cinco meses. Muitas experiências e aprendizados.

    Voltei e comecei um novo relacionamento, desta vez, com bases diferentes do anterior.

    Mudei completamente meus padrões de vida. Hoje moro sozinha. Vendi meu antigo apartamento e comprei um novo. Cuido de tudo que me diz respeito do ponto de vista financeiro e pessoal. Faço academia e caminho diariamente e tenho minha saúde como um cuidado prioritário.

    Estou como voluntária da Fazenda da Esperança Feminina em Fortaleza, e lá me sinto uma delas, descobrindo e curando minhas co-dependências.

    Faço cursos, participo de grupos de leitura, tenho muitas amigas. Com elas aprendo de tudo, coisas realmente inimagináveis até bem pouco tempo.

    Vivo intensamente o amor pelas minhas filhas e meus netos. Ouço suas necessidades e na medida do possível, dou algum suporte. Recebo muito, mas muito amor!

    Tudo isso tem me dado muita autonomia e a liberdade de ser o que gosto e quero.

    Coisas simples como a descoberta de viver minha espiritualidade, com rotinas que faço porque gosto. Ter o controle remoto da minha TV. Ver, ler e ouvir o que me interessa.

    Conviver apenas com amigas que compartilham de afeto e são acolhedoras, engraçadas, leves; namorar; e finalmente passear e viajar para lugares que realmente curto.

    Nada disso acontece sem que eu me enfrente diariamente. Tenho medos, indecisões e preciso de muito suporte espiritual e emocional. Vivo constantemente me desafiando. Erro muito, às vezes acerto.

    Hoje realmente sou uma “nova mulher”, mas em permanente construção. Sinto que vivo mais leve e dou e recebo da vida em proporções mais equilibradas.

    A lição maior? Muitas “oportunidades” vêm embaladas de forma estranha, nos causam sofrimento para chegar a enxergá-las mas, contando com muita ajuda, a gente certamente tira desses pacotes alguns grandes presentes da vida. E ela é agora. Vivamos.